UM MUSEU NA RUA DO HOSPÍCIO – O DO IAHGP . POR JOSÉ LUIZ DA MOTA MENEZES

IAHGP 1Em recente entrevista ao Jornal Folha, de São Paulo, o curador do Museu de Arte de São Paulo – MASP, Adriano Pedrosa, comentando sobre o acervo desse museu, reunido por Assis Chateaubriand, sua relação com o Brasil e a história cultural declarou: a história da arte ortodoxa é até hoje profundamente eurocêntrica; é uma história do gosto e predileção das elites, das classes dominantes, que por sua vez tem na Europa ou na Euro-América sua referência primordial.  Defendia o referido curador uma visão museológica e da história das artes mais voltadas para matrizes brasileiras com relação ao MASP.

Provavelmente o que Pedrosa chama de história da arte ortodoxa seria aquela voltada para a maior valorização da arte produzida na Europa e Euro América para o grupo dominante e que podia pagar os artistas. Arte, na pintura, escultura ou noutras manifestações artísticas de predileção da gente que construía palácios e moradias nobres. O eurocentrismo, do qual faz referência está bem identificado pelo que de importância representou para o restante do mundo a produção européia de tantos séculos.

Deste modo, conforme refere o curador do MASP, muitos dos museus brasileiros estariam enquadrados nessa ortodoxia. Tal situação nos faz refletir sobre o museu do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. Estaria ele, e seus acervo voltados a tais ortodoxias ou eurocentralizações?

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O atual museu do IAHGP está organizado com salas temáticas: sala das Lutas Libertárias; sala dos escritores; sala Gilberto Freyre, das famílias pernambucanas; sala do Império; sala Conde da Boa Vista; sala do mobiliário brasileiro; sala das cadeirinhas de arruar e finalmente uma alcova. O acervo em sua maioria está atrelado enquanto mobiliário e pintura ao produzido em Pernambuco e pouco no exterior. A sala onde estão as peças que se referem às lutas libertárias em Pernambuco, tem seu acervo nitidamente atrelado ao estado. Enquanto ideia de gosto, o material existente guarda referência com o produzido na Europa, mas identifica-se mais com a criatividade local de seus marceneiros e entalhadores. Portanto, o nosso museu não privilegia a Europa e a história que está vinculada aos bens produzidos encontra-se mais aproximada com a grande criatividade do profissional brasileiro que inventou e mudou toda aquela ortodoxia relatada. Por outro lado, a dominante na organização do acervo está vinculada às famílias e suas origens genealógicas e, deste modo, tem certo vínculo com uma elite presente, ora valorizada pelos associados, em Pernambuco no século 19, então formada de comerciantes e senhores de engenhos.

Temos uma forte falha técnica em termos de acervo: estamos distante de possuir peças do século passado. O IAHGP privilegiou os séculos anteriores e não lembrou, na reunião do seu conjunto museológico, um século de vida de Pernambuco. Imperdoável, mas aconteceu.

Na organização do museu a tônica maior foi o valorizar a cultura pernambucana e por extensão do Nordeste. No percorrer das salas o visitante, apesar da dificuldade de interação, da maioria da gente, tem nos objetos expostos uma percepção da produção cultural que escolheu como motivo da coleção, isto por conta da estrutura social então dominante, aquela das famílias dos comerciantes e senhores de engenhos. Outra situação, que julgamos não foi devidamente atendida, diz respeito à presença no acervo, da arte popular, assim impropriamente indicada e com origem nos artesões e artistas, gente que não figura no conjunto dos artistas preferidos daquela sociedade dominante.

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A ausência do século 20 e da produção da arte dita popular, mais integrada com a maioria da gente, torna aquela interação difícil. Os alunos das escolas de 1° e 2° graus e a comunidade em geral, ao visitar o museu, olham para os objetos, os admira, mas não parece absorver suas importâncias. Eles não lhes pertencem são de outra gente.

Situações absolutamente corrigíveis diante do reconhecimento da falha conceitual. Eurocentrismo, conforme Pedrosa, não parece existir e muito menos aquela ortodoxia que valorizaria a Europa e seus artistas, qual a existente em alguns museus do Sul do país.

Assista no momento um passeio virtual pelo Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, postado inicialmente por Ney Dantas (Música: “Minuet no. 2 -From “The Little Book of Anna Magdalena Bach” de Edith Kielgast (eMusic))

Imagens da Internet.

José Luiz da Mota Menezes é arquiteto, urbanista, professor, Presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e da Academia Pernambucana de Letras .

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