FOTOGRAFIAS E CARTÕES POSTAIS DE UM RECIFE QUASE MORTO . POR JOSÉ LUIZ DA MOTA MENEZES

São José ontem e hoje

Diante de mim, sobre a mesa, cartões postais e algumas fotografias mais recentes do Recife. Os dois conjuntos de imagens se referem a um mesmo lugar, o bairro de São José, ou o que dele restou, depois de desmantelado pela Avenida Dantas Barreto. Entre os dois conjuntos de fotografias, percebo diferenças enormes. Os cartões datam de entre os anos 10 e 20 do século passado. As fotografias eu as tirei no dia das eleições, em outubro de 2012, e são do redor do Mercado de Ferro de São José.

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As mudanças se situam em um único ponto: a degradação do bairro. Aquele orgulho bem pernambucano, capaz de ter mandado imprimir na Alemanha os cartões do mercado francês, não está mais presente nos atuais usuários do lugar e, muito menos, nos vários gestores municipais.

Seriam esses os maiores responsáveis por tal tragédia urbana? Sempre se diz isto. Não me parece de todo. A realidade é bem outra, situa-se no tempo e na história do lugar. O bairro se organizou quando não existiam os avanços tecnológicos, com cujos resultados hoje se vive e depende todos nós. O conceito de moderno, dos que concebem os espaços de moradia da gente, mudou sensivelmente depois do ano 20, quando os cartões postais ainda alardeavam uma cidade ora já antiga. Chegou a eletricidade e com ela as máquinas dela dependentes.

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No campo da arquitetura surgiu a querela contra o Ecletismo, tão vinculado aos poderosos da Velha República e, mais grave, ainda ao Império decaído. Um gosto bem representativo da classe dominante, das luzes de Paris e de sua bela época. Nisto nada tendo em comum com o modernismo, cujas linhas se voltavam para uma visão internacional e social da arquitetura.

Na cabeça das causas, a velhice do bairro. Os velhos são ótimos exemplos, donos de uma grande experiência!, mas quem manda é a gente nova. Esta é dona da realidade de um momento, pois que apesar de transitório, se considera moderno e atual, ou símbolo de progresso.

Uma modernidade relativa, porém presente. Além desse feito, temos o crescimento da cidade do Recife para seus subúrbios, antes acanhados com isoladas povoações. Tudo se uniu e cresceu desordenadamente, depois dos anos 50 do mesmo século passado. Nesses novos lugares estão os shoppings e ainda os imensos castelos de muitos andares, que garantem o isolamento, dos que possuem recurso, daqueles miseráveis pedintes de esquinas. “Minha torre é segura – tem cerca eletrificada. Os vizinhos não me incomodam, nem os conheço e estou bem com meu computador, Facebook, Twiter e a melhor televisão 3D que existia no mercado!”.

O velho bairro não pode acompanhar tal trajetória. O bairro de São José tem seu comércio quase todo hoje entregue aos camelôs, coreanos e circula nele miseráveis, pobres ou excêntricos, que compram saldos ou mercadorias, cujos padrões foram clonados dos “Armani” da vida. Há ainda um contrabando bem forte. O bairro de São José hoje parece o Pátio dos Milagres, de um escritor francês. Até rato morto pude fixar na minha máquina naquele dia das eleições. Uma miséria de dá pena.

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O que fazer? Seria possível salvar o lugar. Acredito que sim. Quando viajava pelo Velho Mundo vi lugares em Nápoles na Itália, por exemplo, que até a miséria se vende em imagem. Paris é bem uma cidade do século 19. Roma não é tão nova, quanto se pode desejar, diante de sua importância. A diferença é que nesses lugares sabem fazer turismo.

No Brasil turismo é fonte de riqueza para as empresas, somente não sabemos o que fazem com ela. O ver ainda é das atividades melhores de nossa vida. A fruição estética, associada à noção do diferente, tem uma boa tradição na história do Brasil. Talvez o que se necessite é de gente que entenda de turismo e não daqueles escolhidos por indicativos nem sempre os melhores.

Do jeito em que se encontra o bairro de São José, ninguém tem a coragem de mostrá-lo a quem quer que seja. O ver o mercado e seus ricos materiais exóticos é necessário, mas a trajetória para se chegar ao lugar, por exemplo, é um túnel de perigos para todos nós.

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É com tristeza que guardo na gaveta as fotografias e com elas os cartões postais. São bem parecidas, tais imagens, com os velhos álbuns de família, dá alegria a quem reconhece a gente nele fotografada. O bairro de São José dos cartões postais não se reconhece mais. Vamos fechar e guardar suas imagens e esperar que alguém mais interessado pelo Recife e não pelos os benefícios dos cargos, inclusive das viagens de conhecimento que eles propiciam, venha abrir suas folhas amarelecidas pelo tempo e as revalorize.

José Luiz da Mota Menezes é arquiteto, urbanista, professor, Presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e da Academia Pernambucana de Letras

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