A jóia e a máscara. Por Tota Maia

1

O pórtico e a decoração de natal; qual o limite?

Decorações urbanas temporárias são muito freqüentes pelas bandas de cá em épocas de “festas importantes” do calendário turístico. Mas, qual o limite de intervenção poderá alcançar estas alegorias? Elas podem desvirtuar por completo uma edificação, a ponto de não mais reconhecê-la?

Já faz parte de nossa cultura as decorações urbanas que enfeitam a cidade anunciando a festa que se aproxima. Aprecio, e muito, os multicoloridos do carnaval do Recife de Eduardo, Joana e Carlos Augusto Lyra.

2Alameda dos Bichos na Avenida Marquês de Olinda, carnaval 2006. Fonte: http://www.joanalira.com.br/carnaval-do-recife/

Porém o que se sucede com o Pórtico de acesso a cidade de Garanhuns no natal de 2016, como demonstra a imagem de abertura deste texto, ultrapassa qualquer noção de bom senso estético. É um absurdo, uma aberração!

Você, meu querido leitor, pode me acusar de legislar em causa própria, já que o projeto é de autoria de nosso escritório. Mas, observando com mais atenção as decorações urbanas mundo afora, nos dará razão a indignação. Você já viu algo parecido?

Quando nos foi encomendado o projeto do referido Pórtico, procuramos evitar ao máximo os clichês cenográficos de uma terra que não representasse a nossa, que é o que encontramos Brasil afora. Mais do que isso: Um marco que olhasse para frente, para o futuro, e não uma tentativa de “maquiar” o passado ou outro lugar qualquer.

3

Gramado, Petópolis, Joinvile e Campos do Jordão: Será que teremos que repetir sempre o mesmo formato?

Não quero aqui me ater a descrever as qualidades do objeto arquitetônico.  Seria, no mínimo, uma atitude cabotina. Porém, é inegável a apropriação ambiental que a edificação adquiriu; gostem ou não, hoje é um marco para a cidade. Pelas mesmas razões que deveríamos ter preservado o edifício Caiçara, e tombamos o Oceania – memória da paisagem urbana, no caso a da avenida Boa Viagem – os pórticos das cidades acima devem permanecer como estão, pois já “pertencem” e “identificam” o local, assim como o da cidade de Garanhuns. Porém, diferente dos “outros”, o Pórtico de Garanhuns possui identidade própria, e isso é uma característica relevante do ponto de vista artístico.

No fórum de debates de arquitetura e urbanismo Skycrapercity* (http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=800660) na edição que comemora o aniversário da fundação da cidade com o título “Nem frio, nem Suíça: Garanhuns, 130 anos!” as primeiras imagens são exatamente a do referido pórtico. Em outra edição, “Garanhuns, a Cidade das Flores” (http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=488291), acontece exatamente o mesmo. Se digitarmos apenas a palavra GARANHUNS na busca do Google, encontraríamos “o próprio” como uma das primeiras imagens. Enfim, é inegável hoje a importância dele inserido no contexto urbano.

4

O objeto urbano não agradar a todos, não é exclusividade do edifício em questão. Lembro do fato de uma determinada eleição onde a esposa de um dos candidatos a prefeito de Recife queria remover o totem principal do Parque da Esculturas Francisco Brennand, que se localiza em frente ao marco zero, e que, segundo a ótica dela, “afrontava a moral e os bons costumes da sociedade recifense”. Seguindo a lógica da “decoração garanhuense”, se tal prefeito eleito fosse – e o totem não retirado – poderíamos receber uma “singela” decoração natalina.

5É ou não um absurdo, uma aberração?

Entendendo isto, o problema não está nas decorações urbanas em si, e sim com o respeito ao edifício a se adornar. Os profissionais deste tipo de ofício devem perceber que um pórtico é um marco urbano coletivo e que, assim como ele, a decoração não “lhe” pertencerá mais, e sim a comunidade, afinal a noção do público e do privado deverá se estender em todos os sentidos. Uma ação deste tipo deverá ser alegórica, procurando ao máximo valorizar as linhas do objeto em estudo, jamais ocultá-lo como no caso de Garanhuns. Uma jóia não é uma máscara.

Mesmo que temporária, uma intervenção neste molde modifica uma referência a ponto de desvirtuar do seu principal propósito; pode parecer exagero, mas passando pela estrada algum desavisado poderá não reconhecer o acesso a cidade, tamanha alteração.

Perdoem-me a ironia, mas “parece” aquele típico caso de projeto confeccionado por leigos, por quem não possui a perfeita expertise e experiência para o ofício, diferentemente daqueles profissionais citados no início do texto.  A questão com uma “imagem” pública tem que ser sempre muito cuidadosa e respeitosa; pobre os que acreditam que isto não tem a menor relevância.

*SkyscraperCity, é uma organização independente, um fórum na Internet focado em temas de arquiteturaurbanismoarranha-céus e, de forma geral, em urbanização de ambientes onde há construção civil e temas relacionados ao desenvolvimento urbano. Os membros podem divulgar fotos de quaisquer cidades que tenha fotografado, mostrando diversidades urbanísticas, de forma a que os restantes membros, e público em geral, possam conhecer os vários espaços e comentar sobre sua urbanização, densidade, beleza, além da qualidade de vida. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/SkyscraperCity

Para a montagem com o Pórtico de Garanhuns com a decoração de Natal a fonte foi: http://m.noticias.ne10.uol.com.br/interior/agreste/noticia/2016/11/04/garanhuns-divulga-programacao-do-natal-luz-2016-confira-646266.php

Para as demais montagens, as imagens foram retiradas da internet.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s