O Rio Capibaribe – Uma moldura da cidade do Recife . Por José Luiz da Mota Menezes

1Luís Schlappriz. 1863, Estampacom vista dos solares da passagem da Madalena.

 

Aquele Rio

Está na memória

Como um cão vivo

Dentro da sala.

Como um cão vivo

dentro de um bolso

Como um cão vivo

Debaixo dos lençóis,

Debaixo da camisa,

Da pele.

(Discurso do Capibaribe, João Cabral de Melo Neto)

O Rio Capibaribe, exerceu, para a Companhia das índias Ocidentais, no século 17, grande importância, uma vez que participava do sistema de defesa instalado, uma vez que suas águas eram utilizadas nos fossos das fortificações, garantindo, à maneira da arte da defesa as cortinas das muralhas. Além do interesse que representava na mobilidade urbana para a formação dos canais internos de navegabilidade, enquanto acesso para as ruas de Maurícia. O rio dava, para a gente dos Países Baixos, a necessária memória dessas terras tão distantes.

Recuperado, o Recife, (1654), pelos portugueses, o Rio Capibaribe continuou a ter muito interesse para o lugar, não somente enquanto objeto da navegação, mas sobretudo à luz do ponto de vista de sua percepção visual. Situação que pode ser constatada, desde o século 17, nas pinturas do artista holandês Franz Post, ora retornando no século 19 nas estampas litografadas de Luís Schlappriz e Luís Krauss, impressas por Henrich Carls e, depois, em inúmeros cartões postais.

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Post retratou o local onde hoje é o Centro do Recife. Imagem Fonte: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/03/08/internas_viver,564388/artistas-retratam-as-transformacoes-de-recife-e-olinda-que-fazem-aniversario-esta-semana.shtml

O sistema de navegação, no Rio Capibaribe, empregando canoas, estudado por Evaldo Cabral de Mello, em artigo inserto na Revista do Instituto Arqueológico,Histórico e Geográfico Pernambucano, obrigou a que cais fossem sendo construídos diante das moradias situadas nas suas margens. Alguns desses, eram objetos de grande interesse visual, essencialmente os dos belos solares edificados para veraneio, os quais a partir, aproximadamente, de meados do século passado, passaram a constituir uma linha definidora do perfil da cidade, em relação ao rio. É nessa altura que, talvez,tenha surgidoa imagem de um Recife qual uma Veneza Brasileira, que todos conhecem. Na verdade, as canoas criavam uma perspectiva, não de margem a margem, mas do centro do rio para as duas margens. Processo este muito afim com aquele presente na cidade italiana. Na Madalena, ainda existia um desses cais, com as argolas de amarrar os barcos.

Quem navegava nesse rio tinha uma perspectiva em relação à cidade, vista de dentro dele para as margens. É como se as margens fossem descobertas por quem navegava e, desta forma, e diante de tal interesse enquanto busca de uma cidade bela, foram sendo construídos vários cais ao longo das margens. Eles existem desde o centro até quase chegar ao Engenho dos Dois Irmãos. Em certos trechos, esses cais não eram coletivos, mas sim de cada um dos casarões, marcando presença no rio. Eram várias as perspectivas, diante dos diferentes modelos para aqueles cais, e seus banheiros edificados juntos ao rio.

3Gravura de Luís Schlappriz mostra o rio no bairro da Madalena.     Imagem fonte: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/03/08/internas_viver,564388/artistas-retratam-as-transformacoes-de-recife-e-olinda-que-fazem-aniversario-esta-semana.shtml

Este aspecto foi revertido pela facilidade do sistema viário, depois traçado com o uso de pontes. Isto porque não se tinha acesso desde o bairro do Recife até o lugar do padre Caxangá, senão com o uso de barcos. No contrário haveria de se fazer uma viagem muito longa e de contorno. Passava-se pela ponte do Recife até Santo Antônio, depois vinha a ponte da Boa Vista e a seguir inúmeros pontilhões, além das Pontes D’Uchoa, do André ou da Torre, mas, o trânsito por terra ainda encontrava obstáculos, aqueles criados pelas grandes propriedades e que impediam o crescimento do bairro da Boa Vista na direção Oeste, onde estavam os engenhos de produção de açúcar.

Esse bairro teve de crescer de maneira periférica, desde a Avenida Norte até o Hospital Pedro II, não avançando mais, por conta de propriedades que ficavam no seu centro. Havia os caminhos, porteira a porteira, que geraram depois ruas. Avenida Rosa e Silva, Estrada do Arraial, Avenida Parnamirim, 17 de agosto, que antes eram caminhos de acesso entre os engenhos. Uma vez que essas áreas de acesso iam sendo demarcadas, e casarões passavam a serem edificados, primeiramente voltados para o rio.

Então, com o desenvolvimento daquele sistema viário por terra, o rio perdeu gradualmente sua importância, o que se acentuou com o aparecimento dos primeiros automóveis, os ônibus, e a própria carroça puxada por animais. O sistema viário, pelo rio, passou então a ser abandonado e, lentamente, o rio passou a ser, infelizmente, o esgoto do Recife: um grande esgoto de águas pluviais, recebendo inclusive as águas das fossas.

Quando foi instalado o sistema de esgotamento sanitário, pelo engenheiro Saturnino de Brito – o rio por algum tempo voltou a ser mais limpo, mas perdeu interesse, enquanto sistema de transporte. O rio perdeu a sua beleza, enquanto aquela percepção desde os barcos.

Com o aparecimento das salas de banhos, internas, nas casas, a partir de 1920, isto por conta da instalação do sistema de saneamento, os banheiros, antes citados, juntos ao rio foram também desaparecendo.

Então, hoje surgiu um alento novo, o aparecimento dos parques: Jaqueira, Santana, Caiara, levando a que uma nova revalorização possa avir a existir em relação ao rio, pelo menos até a ponte da Boa Vista. Observe-seque na área da Madalena: os antigos casarões foram substituídos por imensos prédios. Porque não estimular os condomínios dos prédios na direção do criar e manter jardins à beira-rio, uma vez que os edifícios e seus moradores são os naturais usuários dessa beleza? Nas avenidas, que estão se delineando nessas áreas do rio, o ideal seria uma volta à sua valorização.

Primeiro, teria que acabar com as ligações clandestinas de esgotos, absurdas, para dentro do rio; segundo, torná-lo mais navegável; terceiro, educar, não apenas os usuários, mas todo e qualquer pessoa, para que o Capibaribe passe a existir como uma veia importante da cidade. Assim, todos passariam a ter aquela perspectiva do rio para os edifícios. É lamentável, por exemplo, que naquela área entre o Museu do Estado e a sede do Esporte Clube, lado Leste do rio, não venha sendo valorizada. É importante que uma nova perspectiva de uso do rio inclua-se nos planos diretores, para que o tratamento dado às suas margens venha dignificá-lo, como são valorizados os canais de Amsterdã e os rios da Europa. O parisiense se orgulha do Sena e por que nós, recifenses, não nos orgulhamos do nosso rio?

Antes, um velho solar se voltava, com seu cais, para o rio. Hoje, são vários solares superpostos, uma casa em cima da outra. São várias casas. Então, não é mais um usuário, é a coletividade usuária que devia ter mais cuidado com o rio. São os casarões ainda remanescentes: do Batista da Silva, alguns que se estendem ao longo e que devem cuidar do rio como os seus antepassados cuidaram.

Então o rio marcaria não aquela presença morta, mas a de um rio vivo, navegável. Não se precisa de um Bateau Mouche, bastam pequenos barcos. Era a lancha, que a Prefeitura mantinha no Caiara ao tempo do prefeito Joaquim Francisco, uma das coisas mais notáveis. Uma simples chata a motor, dirigida por um barqueiro, então indivíduo admirável, sob o ponto de vista humano. Mas ele gostava do rio. (São pessoas feitas para o emprego que ocupam). Aquele barqueiro, com entusiasmo, mostrava cada parte do rio, ora seguindo mais lento, outras vezes mais rápido, revelando certos aspectos bonitos e lamentando o desaparecimento disso ou daquilo. Um sujeito sensível, incrível. Era essa figura perdida na história, um homem que lidava com motores de barcos. Aquele passeio desde o Caiara, antes propiciado pela Prefeitura, era magnífico. E as pessoas passavam a ser educadas, diante da conscientização do valor do rio. O Rio Capibaribe, teve, perdeu, e deveria readquirir sua importância.

José Luiz da Mota Menezes é arquiteto, urbanista, professor, Presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e da Academia Pernambucana de Letras

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