Interferências individuais em fachadas; até quando? Por Tota Maia

Um dos fatores que tanto encantam Paris é a integridade de seus edifícios, históricos ou não. Você se sentiria atraído por esta encantadora cidade se não houvesse esses atributos? E porque não pensa o mesmo para a sua cidade?

Em 1962, no Edifício Santa Rita, o arquiteto Português Delfim Amorim propôs um novo elemento arquitetônico na tentativa de organizar os aparelhos de ar condicionados que perfuravam as fachadas sem nenhum pudor. “Desenvolve-se neste edifício, a idéia de reservar desde a sua construção, um local para a instalação de aparelhos de ar condicionado. Assim, pequenas caixas pré-fabricadas em concreto armado se destinavam a esse fim e fazem parte efetiva e prevista da composição das fachadas”, escreveram “Luiz Amorim e Geraldo Gomes” no livro “Delfim Amorim, Arquiteto”.  Hoje, estes elementos são, em muitos casos, apenas decorativos, poderiam ser simplesmente suprimido das fachadas, dado a sua inutilidade.

Que, do ponto de vista da coisa pública, o povo de nossa cidade, estado, ou país, é egoísta ao extremo, não há mais o que comentar, é notório saber. Incluo nesta observação a classe mais abastada, educada e instruída, que possui pouquíssima noção de coletividade, pouco se importando com os “outros”. É essa classe que costuma elogiar o harmonioso conjunto arquitetônico parisiense e não possui autocrítica para entender que poderíamos ter, na pior das hipóteses, uma cidade bem mais organizada esteticamente, e que ela é uma peça chave na desconstrução do conceito de harmonia coletiva.

Seguindo uma lógica simplista, ao meu entender as fachadas não “pertencem” aos moradores e sim à cidade, pois “todos” desfrutam visualmente dos edifícios expostos. Uma interferência – mesmo que simplória – altera a noção de unidade da edificação, e por conseqüência, o conjunto urbano e, portanto, deve ser percebida desta maneira.

Ou será que ninguém percebe que ações como fechar com vidros as varandas (até com os mais transparentes e sem caixilharia visíveis), colocar condensadores de air split ou ar condicionados (sem que seja no seu específico local), ou outra reforma perceptível qualquer nas fachadas, são interferências que denigre o edifício, e por conseqüência, o bairro e a cidade?

Invertendo o raciocínio individualista, todo o questionamento no momento de uma ação qualquer de intervenção ao edifício, deveria se basear no seguinte pressuposto: ficará melhor para a maioria? Seguindo a lógica:

Porque sacrificar as fachadas em benefício próprio?

Porque não perceber que com este tipo de ação aceleramos a decadência do edifício, do bairro, da cidade, etc?

Porque não discordar das desculpas do tipo “ah, se fulano fez, que mal tem eu fazer o mesmo novamente?”

Porque procurar desculpas técnicas do tipo “se não cabe no espaço reservado, o que posso fazer”?

Porque acreditar que o “discreto” é “imperceptível”?

Um  outro enfoque para as mesmas questões:

Você acredita mesmo que não houve nenhuma mutilação às fachadas?

Você acredita que o edifício, o bairro, a cidade, não ficarão decantes com cada um tomando a “sua” decisão, individualmente?

Você acredita possuir esse direito, e que “ninguém tem nada com isso?

Você acredita mesmo que só existe essa solução?

Você acredita cegamente que ninguém perceberá?

O que observamos é que a grande maioria não faz estes questionamentos; pior: talvez nem tenha passado pela cabeça! Você poderia acreditar que apenas edifícios em péssimo estado ou em áreas degradadas acontecem as tais “intervenções desastrosas”, mas o que acontece é que encontramos em praticamente todos, sejam nos das classes ricas, médias e pobres, como os recém entregues, novos, ou mais antigos e históricos.

Se você não se questiona sobre estas perguntas e/ou não se importa com elas, desconsidere minhas ponderações. Mas se você, mesmo diante tantas dúvidas, seguiu em frente e concluiu que, mesmo assim, valeria continuar a fazer o que era melhor apenas para você, ou no máximo, apenas para os seus, não escrevo para constrangê-lo e sim para que reflita mais um pouco nas suas futuras decisões. Afinal o mundo, não é apenas o seu umbigo.

 

 

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