Sócios nos prejuízos. Por Tota Maia

“Depois de bem ajustado o preço,

a gente deve sempre trabalhar

por amor à arte.”

Millôr Fernandes

Imagem produzida a partir do depositphotoshttps://pt.depositphotos.com/97905046/stock-photo-exhausted-bearded-young-architect-sleeping.html:

Um determinado paciente foi a uma cirurgia de risco pequeno, porém, mesmo sem erro médico, veio a falecer. O profissional de medicina deve ser remunerado?

A premissa mínima dos profissionais liberais é receber seus honorários – previamente acordados – na conclusão de seus trabalhos. Parece simples, mas em arquitetura, pelo menos pelos lados do Recife, a coisa não é bem assim.

Tal procedimento funciona com qualquer profissional, além do citado na abertura do texto. Se um cliente comprar um terreno para construir uma casa e contratar um pedreiro para a confecção do muro, e por razões indiferentes ao contratado desistir da construção da referida edificação, certamente ele pagará o tal pedreiro. Um contador tem os seus honorários honrados, mesmo que a empresa contratante não possua funcionários e não emita nenhuma nota fiscal durante o mês. A costureira recebe pelo vestido de noiva, mesmo se o casamento for cancelado. Perdoem-me a comparação chula, mas até uma meretriz recebe sua remuneração mesmo diante a insatisfação de seu cliente (na prática o fato pode não ocorrer desta maneira, mas por razões que não a de uma relação profissional).

Nos “novos tempos” parece que o cliente paga o profissional de arquitetura se quiser; mesmo diante contratos formais.

Freqüentemente encontramos em nossa vida profissional situações do tipo:

– O anteprojeto da loja já foi aprovado, precisamos resolver nossa remuneração, diz o arquiteto.

– Amigo, desistimos da construção de nossa boutique; infelizmente o seu trabalho já não mais nos interessa!

O arquiteto, insatisfeito com a resposta, o confronta de maneira incrédula:

– Mas eu fiz o meu trabalho! Conclui no prazo, e tudo de acordo com o acertado, você mesmo aprovou!

– Você não entendeu; porque lhe pagarei se já lhe disse que não mais construirei a loja?

Em outra ocasião, após a entrega do projeto integralmente aprovado na prefeitura e licenciado para o início das obras, a construtora não quis honrar os honorários do arquiteto alegando que “feito uma pesquisa de mercado, o edifício seria um fracasso comercial”:

-Como? Lembra-se que eu queria dividir em etapas anteriores e você preferiu em contrato que receberíamos na aprovação da Prefeitura?

-Lembro, mas se não aprovasse na prefeitura de que serviria apenas o estudo inicial para mim? Retrucou o cliente.

– A aprovação na Prefeitura é uma obrigação do arquiteto; ele deve se cercar das normas e leis e garantir a aprovação dentro delas. A questão comercial, não; ele não possui nenhuma ingerência sobre o processo, devolveu o arquiteto.

– Como posso resolver a questão comercial, sem ter certeza do que realmente “cabe”, ou seja, sem um projeto aprovado?

Imagem fonte: https://www.portalarquitetura.com.br/aprovacao

Em outro momento, após reprovação da solução adotada por parte do engenheiro de fundações devido a “qualidade do terreno” em decorrência do nível do lençol freático, o cliente não quis pagar a “reforma” do “novo” projeto de arquitetura, mesmo aprovado em todos os órgãos competentes:

Mas foi o senhor quem me pediu para fazermos o projeto com o semi-enterrado que garantiria mais um pavimento de apartamentos. Evitando-se o semi-enterrado e transformando o estacionamento em térreo, altera-se profundamente o projeto, perderemos o tal pavimento, etc, ponderou o arquiteto.

– Você quer que eu lhe pague dois projetos, enquanto você só me entrega um? De que me servirá o projeto anterior?

Sinceramente não consigo entender esta analogia: O que conecta a remuneração paga pelo serviço de um profissional com a desistência do cliente? Releia os exemplos dos outros profissionais acima e reflita se não tenho razão.

Enfim, mesmo de forma desavisada, somos sócios de alguns de nossos clientes: somente nos prejuízos. Se o negócio der certo e for adiante, o arquiteto é remunerado; caso não, não existe obrigação a cumprir. Essa é a lógica vigente.

Observem que em momento algum nos exemplos acima foi acordado que, se por acaso houvesse uma desistência por parte do contratante, o profissional não seria remunerado. Isto seria uma cláusula, no mínimo esdrúxula, concordam?

O fato é que, hoje existe uma máxima (somente para os clientes) em que todo trabalho de arquiteto é de risco, ou seja, se não for adiante ele perde tudo, mesmo que divida em etapas e cobre apenas as conclusas. Em resumo: nesta “sociedade”, os “riscos” recaem somente sobre os arquitetos que, dependem do “sucesso” do negócio.

Imagem fonte: http://www.emorar.com.br/inadimplencia-em-condominios-de-sp-caiu/

Observem que não se trata de uma questão de inadimplência; problema deste tipo é corriqueiro em toda a profissão. Na inadimplência o cliente reconhece a dívida e por alguma razão, não consegue honrá-la. No nosso caso, não; ele simplesmente não a reconhece. Muito pelo contrário: quando a paga, entende que agiu como se “fizesse um favor” para com o profissional.

Óbvio que nem todos os clientes procedem assim, como é incontestável que não deveria existir nenhum. Por outro lado, por aqui, a frase do genial Millôr sofreria uma pequena adaptação: “Depois de bem ajustado o preço, a gente deve sempre trabalhar por amor à sorte.”

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