A demolição das Casas Geminadas Modernistas da Av. Rosa e Silva. Por Tota Maia

Imagem Fonte : Leo Cysneiros

Logo nas primeiras horas da manhã de ontem, 30 de janeiro de 2018, fui informado pelo grande amigo e arquiteto Alexandre Baía, Diretor do IAB-PE, sobre o início da demolição das casas geminadas modernistas da Av. Rosa e Silva, obra do arquiteto Augusto Reynaldo.

Imagem fonte : arquiteta Nadja Granja

Já ouvi o historiador Leandro Karnal dizer algumas vezes que ele “falhou como professor de História quando escuta de algum jovem ex-aluno dizer que gostaria da volta da Ditadura Militar”.  Talvez os nossos mestres da arquitetura moderna local também tenham falhado pelo o pouco apego que nós, consumidores destas obras (em uma linguagem extremamente vulgar), temos a este momento histórico e artístico.

Já repeti em outros textos, palestras, aulas, etc que para mim este período, que eu situaria entre os anos 50 e 70, é o melhor em termos de resultado arquitetônico-artístico que temos em nossa região. A sorte de convergir simultaneamente Mário Russo, Acácio Gil Borsoi, Delfim Amorim – “não recifenses” que aportaram por aqui – somando-se ao surgimento de uma geração maravilhosa de arquitetos como Augusto Reynaldo, Heitor Maia Neto, Wandenkolk Tinoco, Reginaldo Araujo, Vital Pessoa de Melo, Marcos Domingues, Armando de Holanda, dentre outros, fez com que a produção desta época fosse realmente bem acima do que já tínhamos visto ou que vemos hoje.

Porém, infelizmente, este período não possui a devida atenção que sua importância merece.

Augusto Reynaldo foi, além de talentosíssimo artista plástico e um dos mais importantes arquitetos desta geração, talvez o mais brilhante quando nos referimos a soluções volumétricas.

Abstração, quadro de Augusto Reynaldo. Fotografia de Mariana G. Reynaldo Alves. Fonte (Trabalho final de Graduação Augusto Reynaldo, Resgate de uma Obra de Mariana G. Reynaldo Alves )

O trabalho de graduação pela UFPE de sua neta Mariana G. Reynaldo Alves, orientado pelo professor Fernando Diniz, com o título “Augusto Reynaldo, Resgate de uma Obra“ provavelmente é um dos poucos documentos que existem sobre o trabalho deste maravilhoso profissional.

Observo que estas casas, originalmente para atender a Guilherme Marques Cerqueira e Francisco Peixoto da Silva, não são um projeto qualquer; Segundo outro querido amigo e arquiteto Márcio Erlich, provavelmente “estão entre as ultimas obras que sobraram do arquiteto”.

Em matéria do Jornal do Commercio Publicada em 05/07/2015, “Recife das casas modernistas” (http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/geral/noticia/2015/07/05/o-recife-das-casas-modernistas-188707.php) a arquiteta, pesquisadora da arquitetura moderna e professora do Departamento de Arquitetura da UFPE Gulah Naslavsky destaca uma série de casas modernistas dentre elas as casas geminadas da Rosa e Silva: “No Recife as edificações aproveitam o clima de região (quente e úmido) a cultura local e incorporam artística plásticos”.

Imagem Fonte: http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/geral/noticia/2015/07/05/o-recife-das-casas-modernistas-188707.php

Alguns órgãos de classe já se manifestaram como o IAB-PE em nome de seu presidente Roberto Ghione:

A Diretora Executiva de Licenciamento e Urbanismo da Secretaria de Mobilidade e Controle urbano da Prefeitura da Cidade do Recife, Taciana Sotto Mayor afirmou em um grupo de arquitetos que participo que “intimação, multa, ação judicial, tudo isso já foi feito”.

A discussão poderia ter sido ampliada ao se perceber que não houve nenhuma manifestação ou jurisdição anterior para a preservação deste patrimônio. Parece que só nos movimentamos quando o processo se torna irreversível.

Sinceramente, temo que em um futuro bem próximo o excelente arquiteto Augusto Reynaldo se torne, no máximo, uma citação em um  outro trabalho acadêmico qualquer.

Imagem Fonte: Fotografias de Mariana G. Reynaldo Alves para o Trabalho final de Graduação Augusto Reynaldo, Resgate de uma Obra de Mariana G. Reynaldo Alves.

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10 ideias sobre “A demolição das Casas Geminadas Modernistas da Av. Rosa e Silva. Por Tota Maia

  1. Fernando Neves

    As casas são lindas e merecem ser preservadas como patrimônio da cidade, porém o problema é a forma como é tratado o assunto aqui, não dá para jogar a solução para o proprietário. Se é importante e de interesse público, então o Estado deveria comprar o imóvel ou outros incentivos, porque criar leis de preservação onde depende dos proprietários, fica difícil de preservar algo, veja os imóveis abandonados e caindo os pedaços no centro do Recife…
    Mas parabéns pelo trabalho, é importante e ajuda a criar essa consciência de preservação, que precisa ser mais divulgada e fazer parte da cultura da cidade.

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  2. sergio

    A comissão da Prefeitura do Recife responsável pela permissividade do desmonte do patrimônio preservado por lei, a começar do gestor Geju, deveria ser demitido/ destituído por justa causa pela incompetência!

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  3. murilo medeiros de siqueira

    Uma pena! É a clássica situação onde o interesse particular do proprietário choca com o da sociedade. É necessário oferecer incentivos ao proprietário para que o mesmo preserve o imóvel, se não existir acontece isso aí!

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  4. Daizes Claizoni

    Sempre que passo diante destas duas casas espero que o semáforo esteja fechado para poder olha-las com admiração.
    Assim como tantos outros predios se valor arquitetônico em nossa cidade, este é mais um que entra em descaso pelo município. Não vemos aqui em Recife a preservação de nosaa história. Somos uma cidade cada vez mais sem identidade. E isto pelo valor que se paga para apagar o que antes deveria ser enaltecido.

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  5. Mariana Reynaldo

    Tão difícil para mim é me posicionar diante desta e de tantas outras demolições. Em parte, por ver destruída a memória viva de meu avô. Como se fosse possível morrer mais, sinto meu avô morrer mais nas formas e cores tão belas que nos deixou e agora padecem. Um avô que não conheci em vida, pois morreu tragicamente tão cedo, mas que me tornei íntima através das histórias da família, dos amigos, de suas obras e das pesquisas que pude realizar. Mas o que parece um sentimento tão particular, meu luto pelo meu avô, também parece algo maior, um luto nosso, de nossa cultura, nossa história. Perco mais uma vez meu avô, assim como a cidade perde em expressão de arte, em memória, em identidade. Perdemos todos!!

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    1. modulacao Autor do post

      Que belo e singelo texto Mariana, parabéns! Você também não deve me conhecer, mas seu avô talvez tenha sido o maior amigo de meu pai, Heitor Maia Neto. Amigos ao ponto de Heitor terminar as obras inacabadas em Campina Grande. Papai sempre me falava com o maior carinho de Augusto, ele sempre me dizia: Augusto era craque, um dos melhores! Espero que, pelo menos, a demolição destas duas jóias, sirva de lição para que possamos rever as leis de preservação, e que outros exemplos, dos pouquíssimos que nós ainda temos dessa época áurea, ainda possam ser preservados para o bem de nossa memória.

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  6. Jorge Reynaldo Lôbo Alves

    E eu, filho de Augusto e pai de Mariana, que a ajudei na confecção do trabalho, indo com ela até Campina Grande (onde ainda existem algumas casas em pé), dando os meus depoimentos, como arquiteto e aluno de Heitor Mais (Tio Beco), de Delfim Amorim, e de tantos outros que este país não faz questão de esquecer, choro triplamente, e cada vez tenho menos orgulho de ser brasileiro.

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