Arquitetura é obra conclusa. Por Tota Maia

                                                                                            “Um médico pode enterrar seus erros,                                                                                                                      mas um arquiteto, o máximo que pode                                                                                                                 fazer, é sugerir aos seus clientes que                                                                                                                       plantem trepadeiras. “

                                                                                             Frank Lloyd Wrigh

Imagem fonte: http://fazendadonacarolina.com.br/blog/2017/11/03/erros-na-construcao-de-uma-casa-de-campo/

É comum depararmos no dia a dia com problemas advindo da falta da perfeita compreensão, ou simplesmente pouca informação da técnica, por parte de quem constrói, e isso pode prejudicar um bom projeto. O arquiteto possui responsabilidade sobre a obra conclusa?

O amigo e engenheiro estrutural Silvio Ricardo Sampaio Ribeiro me disse certa vez uma frase (desconheço a autoria original) que marcou profundamente não apenas a minha atuação profissional, mas a minha própria maneira de enxergar a vida: “pouco adianta está certo diante do problema; adianta evitar o problema.”

Há algum tempo participei de um embate em um seminário no CREA-PE em que o debatedor afirmou que “o projeto já era arquitetura”, fato que refutei com veemência; para mim arquitetura é obra conclusa. Entendo o Projeto Arquitetônico como uma das uma das etapas de um planejamento que se encerra com o término da construção. Ele argumentou que “a arquitetura poderia ser revolucionada até com simples desenhos” e citou o genial arquiteto italiano Antonio Sant’Elia. Retruquei lhe dizendo que “idéias revolucionam o mundo, não apenas desenhos; que até um filme pode modificar a arquitetura e que, sem o espaço arquitetônico vivenciado, sentido, explorado, não existe a “alma” da arquitetura. O projeto é apenas uma representação das idéias arquitetônicas; um meio para se chegar a um fim; um roteiro, não um filme”.

Desenhos de Antonio Sant’Elia Fonte: imagens da internet

Por mais que tenhamos precisas informações a cerca do que existe de mais contemporâneo no que se faz mundo afora em termos de arquitetura, na prática, a maioria dos clientes espera apenas que você resolva os problemas que se apresentam, e você deve trabalhar baseado nos seus desejos e na capacidade de melhor executá-los. Portanto, independente do que anseia, o resultado de seu trabalho será limitado pelo conhecimento de seu contratante para as questões estéticas e funcionais, e do executor para as questões técnicas.

Já escrevi sobre um texto sobre o tema “A importância do projeto para a perfeita execução” (https://modulacao.wordpress.com/2016/01/20/a-importancia-do-projeto-para-a-perfeita-execucao-por-tota-maia/) no qual explano sobre o quão fundamental é que o “executor” entenda perfeitamente o “querer” das suas idéias. Porém, é comum depararmos com um que não tenha formação e/ou possua informações técnico-práticas extremamente limitadas. Portanto apenas disponibilizar o perfeito e compreensível projeto não “evitará o problema”; é necessário se informar se o construtor terá a capacidade de respeitá-lo.

Recentemente me deparei com um “mestre” que tinha uma enorme dificuldade de executar as coisas conforme projetado inicialmente:

– “Dotô”, eu nunca fiz isso desse jeito, não!  Não me responsabilizo se não der certo!

– Mas não está aqui na planta (procuro explicar exatamente o desenho)?

– O desenho eu entendi; mas só sei fazer desse outro jeito…

– Então vamos adaptar para a maneira que você prefere, contanto que o resultado final seja este aqui (e demonstrei a solução).

Projeto adaptado e obra pronta. Imagem fonte: autor

É importante salientar que o arquiteto é quem tem o controle da situação. Se moldar a capacidade do construtor e se afastar da concepção original – mesmo que o resultado fique “um pouco” desconforme ao pensado inicialmente – também é uma maneira de se atingir o objetivo que é um edifício/espaço satisfatório para todos, inclusive você. A “graduação” de “o quanto ceder ou exigir a perfeita execução” é você quem dará.

Observo que após a obra conclusa e um resultado pouco satisfatório, ninguém se preocupará em descobrir que o “projeto era maravilhoso, mas o executor não foi capaz de bem construir”. O arquiteto pode não ter responsabilidade civil sobre a construção; mas será avaliado por ela. Entendendo isto, você prefere que ao final o trabalho entre no seu portfólio, ou “plantar trepadeiras”?

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2 ideias sobre “Arquitetura é obra conclusa. Por Tota Maia

  1. PPontual

    Boa reflexão! O papel é macio, e aceita tudo graciosamente, já a pedra é dura e só se molda a quem sabe tratá-la!
    De boas intenções o inferno está cheio!
    De bons discursos, o congresso está cheio! E a carceragem de Curitiba também!!!
    Abs
    PPontual

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